In Brain Company

Iogurtes para o stress

São notícias do futuro e, como tudo o que diz respeito ao futuro, ainda incertas, mas alinhadas com o que se começa a descobrir sobre a relação de saúde psicológica e saúde… intestinal. E esta?

 

Não sei se sabe, mas os intestinos são chamados de segundo cérebro, pela elevada concentração de neurónios que têm. Isso mesmo, viu bem! Neurónios, aquelas células cerebrais que, afinal, arrendam espaço um pouco mais abaixo 🙂 Mas a relação fascinante entre cérebro e intestinos terá de ficar para outro artigo porque hoje quero mesmo é falar-lhe sobre os 100 trilliões de células dos microorganismos que hospedamos: o microbioma ou microbiota. Por exemplo, sabe que apenas 10% de si é humano? Os restantes 90%  – em termos de peso, estimado em cerca de 1kg seu – são compostos por uma comunidade viva dos mais diversos microorganismos, e que é objecto de estudo da recente Microbiologia. Ando de tal forma fascinada com o que se anda a descobrir em Microbiologia, nomeadamente, as primeiras sugestões quanto à influência que estes organismos que hospedamos podem ter no nosso comportamento e psicologia geral, que se por milagre acordasse amanhã com menos 30 anos, punha-me a caminho imediatamente de uma especialização nesta área 🙂

 

Repare: assim como temos os nossos genes – o genoma humano – este bicharocos têm também os seus – o microbioma. E falando de genes, a proporção é de 100 para 1 – ganham os micróbios que fazem parte de nós! Então, quando falamos na nossa genética estamos a referir-nos a apenas 1% do capital genético com que nos passeamos pela vida. Extraordinário, não? Noutras conversas talvez lhe fale sobre algumas conclusões-  e sobretudo interrogações – que este tema está a colocar ao que julgamos ser o nosso livre arbítrio e ao impacto na forma como agimos, pensamos e nos sentimos, mas agora quero mesmo voltar aos iogurtes, senão acabamos com um artigo a desenrolar-se por várias páginas 🙂

 

Apesar de esta microbiota estar presente um pouco por todo o nosso corpo, cerca de 70% habita os nossos intestinos, e a colonização começa logo quando nascemos – nos partos naturais, o bebé é colonizado por bactérias que estão no canal vaginal da mãe e nas cesarianas por bactérias da pele da mãe e dos médicos e enfermeiros que assistem ao parto. Mas mal acaba de nascer já tem uma colónia substancial a habitá-lo e que se estabiliza perto do 1 ano de idade.

Esta população microbiana é extremamente importante para a nossa saúde geral (além de importante sabe-se lá mais para quê…) e, apesar da má fama de alguns destes microorganismos, responsáveis por algumas doenças, a larguíssima maioria deles são nossos “amigos”, protegem-nos e ajudam-nos no funcionamento geral, físico e mesmo psicológico e também fazem parte daquilo a que chamamos “eu”.

 

Ora há já estudos a demonstrarem que o microbioma intestinal pode influenciar os complexos sistemas de neurotransmissores cerebrais, os mensageiros químicos que estão na base da comunicação entre neurónios (como a serotonina, dopamina, adrenalina e muitos outros que influenciam todo o sistema psicológico) e que podem ter um impacto significativo na modulação de stress e não só. E daí a termos um engenheiro* a tentar criar um probiótico que nos ajude na proteção contra picos de adrenalina (responsáveis por muito do mal-estar sentido na ansiedade e stress) e que possa ser adicionado aos iogurtes ou tomado numa cápsula, foi um instante. Bem, um instante e uma bolsa de investigação de uns 500.000€ 😉

 

Os probióticos, de que já todos ouvimos falar, são organismos vivos apurados para um impacto positivo na saúde, e que vêm na forma de suplementos alimentares destinados, habitualmente, a tratar ou ajudar a tratar problemas digestivos, alérgicos, etc. O tema que se coloca por enquanto é que andamos maioritariamente a comprar gato por lebre, porque, assim como o conjunto de genes de cada espécie de microorganismo que nos habita é muito distinto, também não faz qualquer sentido tomar um probiótico qualquer esperando que ajude, por milagre ou boa vontade, com aquele conjunto específico de bicharocos que precisamos que nos ajudem – actualmente, ainda é como atirar um tiro de canhão e tentar acertar na mosca…

 

Esta área de desenvolvimento de probióticos acaba por resultar naturalmente dos avanços na Microbiologia, porque responde à pergunta: “De que é que os nossos amigos micróbios gostam e precisam para ficarem fortes na nossa defesa contra doenças e problemas?” (já os antibióticos respondem à pergunta “O que é que pode dar cabo dos nossos inimigos micróbios, para que parem de nos atormentar?”).

 

Por isso, enquanto esperamos pelo dia em que, olhando para a secção dos iogurtes no supermercado, as nossas escolhas ainda sejam apenas sobre morango versus pêssego, e passem a incluir o tipo de probiótico com que queremos alimentar os nossos hóspedes que nos ajudam com o stress ou com qualquer um dos múltiplos temas que se nos colocam em saúde geral ou psicológica, talvez seja bom pensarmos apenas que temos de incluir iogurtes no nosso carrinho de compras. Porque daquilo que não parecem existir dúvidas é que os iogurtes contêm agentes muito amigos da nossa flora intestinal – e os amigos dos nossos amigos, nossos amigos são!

 

  • Tae Seok Moon, engenheiro na School of Engineering & Applied Science na Washington University em St. Louis

 

Maio 26, 2017

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